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HPV e câncer de orofaringe: transmissão, vacina e sinais

Dr. Thiago Chulam · CRM-SP 131730 Leitura de 7 min
HPV e câncer de orofaringe: transmissão, vacina e sinais

Nas últimas décadas, a relação entre HPV e câncer de orofaringe mudou a forma como os médicos enxergam os tumores da garganta. Se antes eles eram associados quase só ao cigarro e ao álcool, hoje uma parte relevante dos casos está ligada ao papilomavírus humano. Este texto explica como o vírus age, quem está em risco, o que significa o p16 no laudo e o papel da vacina.

Como o HPV causa câncer na garganta?

O HPV é um vírus muito comum, transmitido principalmente por contato sexual, incluindo o sexo oral. A maioria das pessoas entra em contato com ele em algum momento da vida, e, na grande maioria das vezes, o próprio sistema imune elimina a infecção sem deixar sequelas.

Em uma pequena parcela das pessoas, alguns tipos de HPV considerados de alto risco persistem por anos nas células da orofaringe, especialmente nas amígdalas e na base da língua. Esses tecidos têm dobras profundas que favorecem a permanência do vírus. O tipo mais associado ao câncer de orofaringe é o HPV-16.

Quando a infecção persiste, proteínas produzidas pelo vírus desativam mecanismos naturais de controle do crescimento celular. Ao longo de muitos anos, isso pode levar ao surgimento de um tumor. É um processo lento, e ter tido contato com o HPV não significa que a pessoa terá câncer.

Quem está em risco hoje e por que o perfil mudou?

O câncer de orofaringe relacionado ao cigarro e ao álcool continua existindo, mas em vários países o número de casos associados ao HPV aumentou. Esses pacientes costumam ter um perfil diferente do tradicional.

  • São, em média, mais jovens, muitas vezes entre 40 e 60 anos.
  • Com frequência não fumam ou fumaram pouco.
  • O diagnóstico é mais comum em homens.
  • O tumor primário pode ser pequeno, enquanto o linfonodo do pescoço já está aumentado.

Um número maior de parceiros sexuais ao longo da vida, especialmente de sexo oral, está associado a um risco maior de infecção oral persistente. O tabagismo, além de ser um fator de risco independente, parece dificultar a eliminação do vírus.

O que significa p16 positivo no laudo?

O p16 é uma proteína que se acumula nas células quando o HPV de alto risco está ativo. No laudo da biópsia, o patologista usa um exame chamado imuno-histoquímica para verificar sua presença. Quando o p16 é positivo em um tumor de orofaringe, isso indica, na grande maioria das vezes, que o câncer está relacionado ao HPV.

Essa informação é importante por dois motivos. Primeiro, os tumores p16 positivos costumam responder bem ao tratamento e têm, em geral, prognóstico mais favorável do que os relacionados apenas ao tabaco.

Segundo, desde a oitava edição do sistema de estadiamento TNM, o câncer de orofaringe p16 positivo tem uma classificação própria. Por isso, um mesmo tamanho de tumor e de linfonodo pode corresponder a estágios diferentes conforme o p16. Em alguns casos, testes que detectam o próprio vírus complementam a análise.

Quais sinais merecem avaliação (caroço no pescoço sem dor, dor de garganta persistente)?

O sinal mais comum do câncer de orofaringe relacionado ao HPV é um caroço no pescoço, geralmente abaixo do ângulo da mandíbula, que não dói e não desaparece. Muitas vezes, ele tem conteúdo líquido e pode ser confundido com um cisto benigno.

Outros sinais que merecem avaliação quando duram mais de duas a três semanas são dor de garganta de um lado só, dor que irradia para o ouvido, dificuldade ou dor para engolir, sensação de algo parado na garganta, sangue na saliva e alteração na voz. O texto sobre sintomas do câncer de orofaringe aprofunda esse tema, e o guia sobre gânglio no pescoço ajuda a entender quando se preocupar.

Esses sintomas também aparecem em condições benignas, como infecções. O importante é não deixar que persistam sem avaliação. O cirurgião de cabeça e pescoço examina a garganta, geralmente com uma fibra óptica fina, e solicita os exames necessários.

A vacina contra HPV protege a orofaringe? Quem pode tomar?

A vacina contra o HPV foi desenvolvida inicialmente para prevenir o câncer do colo do útero e as verrugas genitais, e protege contra os tipos de alto risco, incluindo o HPV-16. Estudos mostram que pessoas vacinadas têm muito menos infecção oral por esses tipos, o que indica potencial de prevenção também na orofaringe. Como o câncer leva muitos anos para surgir, os dados diretos sobre a redução desses tumores ainda estão se acumulando.

No Brasil, o Ministério da Saúde oferece a vacina pelo SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos, além de grupos com condições específicas, como pessoas imunossuprimidas, em faixas etárias mais amplas. As regras podem ser atualizadas, por isso vale confirmar na unidade de saúde. Fora dos grupos contemplados, a vacinação pode ser discutida com o médico na rede privada. A proteção é maior quando a vacina é aplicada antes do início da vida sexual.

O câncer de orofaringe por HPV tem tratamento diferente?

Hoje, os princípios do tratamento são semelhantes aos dos demais tumores de orofaringe e dependem principalmente do estágio. As opções incluem cirurgia, radioterapia e quimioterapia, isoladas ou combinadas, definidas em discussão multidisciplinar.

Em casos selecionados, a cirurgia transoral, inclusive com auxílio robótico, pode ser uma opção quando há benefício real para o paciente. Mais informações estão em cirurgia para tumores de boca e orofaringe e na página de cirurgia robótica. Estratégias para reduzir a intensidade do tratamento nos tumores p16 positivos vêm sendo estudadas, mas, até o momento, são adotadas principalmente dentro de protocolos de pesquisa. Uma visão geral está na página sobre câncer de cabeça e pescoço.

O Dr. Thiago Chulam, cirurgião de cabeça e pescoço com doutorado em Oncologia pelo A.C.Camargo Cancer Center, avalia pacientes com nódulos cervicais e suspeita de tumores de orofaringe em São Paulo, Sorocaba e Vitória. Para agendar uma avaliação, acesse a página do cirurgião de cabeça e pescoço em São Paulo.

Perguntas frequentes

O HPV pode ser transmitido pelo beijo?

A principal via de transmissão para a boca e a garganta é o sexo oral. Alguns estudos sugerem que o beijo profundo possa ter participação, mas com peso bem menor. Não há evidência de transmissão por talheres, copos ou contato social comum. O preservativo e barreiras de látex reduzem o risco, sem eliminá-lo, e a vacinação é a principal medida preventiva.

Quem teve HPV genital vai ter câncer na garganta?

Não. A infecção pelo HPV é muito comum e, na grande maioria das pessoas, é eliminada pelo sistema imune. Apenas uma pequena parcela desenvolve infecção persistente por tipos de alto risco, e menos ainda chega a ter câncer, após muitos anos. Não existe exame de rastreamento validado para a orofaringe, por isso a atenção deve ser aos sinais persistentes.

Adultos podem tomar a vacina contra HPV?

Pelo SUS, a vacina é oferecida principalmente a crianças e adolescentes de 9 a 14 anos e a grupos com condições específicas definidas pelo Ministério da Saúde. Adultos fora desses grupos podem conversar com o médico sobre a vacinação na rede privada. O benefício tende a ser maior em quem ainda não teve contato com os tipos de HPV incluídos na vacina.

Câncer de orofaringe p16 positivo tem prognóstico diferente?

Em geral, sim. Os tumores de orofaringe relacionados ao HPV, identificados pelo p16 positivo, costumam responder bem ao tratamento e têm prognóstico mais favorável do que os ligados apenas ao tabaco. Ainda assim, cada caso depende do estágio, do tabagismo e das condições de saúde. O tratamento segue as diretrizes atuais e deve ser discutido por equipe multidisciplinar.

Referências

  • Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estimativa 2023: incidência de câncer no Brasil, 2022.
  • Ministério da Saúde. Calendário Nacional de Vacinação — vacina HPV, acesso em 2026.
  • American Joint Committee on Cancer (AJCC). Cancer Staging Manual, 8ª edição — orofaringe HPV-associada (p16+), 2017.
  • National Comprehensive Cancer Network (NCCN). Diretrizes para cânceres de cabeça e pescoço, 2025.

Dr. Thiago Chulam — cirurgião de cabeça e pescoço | CRM-SP 131730 | RQE 44274. Conteúdo informativo, não substitui consulta médica.

O Dr. Thiago Chulam é cirurgião de cabeça e pescoço (CRM-SP 131730 · RQE 44274) e atende em três cidades. Veja como funciona a consulta na mais perto de você:

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