De forma pioneira, estudo propõe validação de síndrome familiar de câncer de cabeça e pescoço

Com a proposta de caracterizar o perfil clínico e epidemiológico de pacientes portadores de câncer de cabeça e pescoço e propor a validação de uma síndrome familiar relacionada a estes tumores por meio da avaliação dos níveis de expressão dos microRNAs (reguladores da expressão de genes) em amostras de sangue de pacientes com carcinoma epidermópide de cabeça e pescoço (CECP) e de seus respectivos parentes para determinar quais genes são mais relacionados ao câncer nesta população, o cirurgião oncologista do Núcleo de Cabeça e Pescoço e Otorrinolaringologia do A.C.Camargo Cancer Center, Thiago Celestino Chulam, defendeu a tese de doutorado MicroRNAs em pacientes com história familiar de carcinoma epidermóide de cabeça e pescoço, pelo programa de pós-graduação Stricto Sensu da Fundação Antônio Prudente/A.C.Camargo.

Apesar da maioria dos casos de câncer de cabeça e pescoço ocorrer de maneira esporádica e geralmente ter associação direta à exposição crônica ao álcool e tabaco ou infecção pelo HPV, a história familiar também é um fator de risco. Segundo Thiago Chulam, embora seja sabido o papel da hereditariedade – presente em 5% dos casos – não havia na Literatura trabalhos que apontassem para os MicroRNAs que promovem uma maior ou menor expressão de determinados genes nos casos familiares. O doutorado foi realizado sob orientação do cirurgião oncologista e diretor do Núcleo de Cabeça e Pescoço e Otorrinolaringologia do A.C.Camargo, Luiz Paulo Kowalski e co-orientação da bióloga e geneticista do A.C.Camargo e UNESP/Botucatu, Sílvia Regina Rogatto,

METOLOGIA E RESULTADOS

Foram selecionados 74 pacientes tratados no Núcleo de Cabeça e Pescoço e Otorrinolaringologia do A.C.Camargo de 2003 a 2011 e, a partir deles, inclusos 171 familiares. Para tanto, o paciente precisava estar exemplificado ao menos em um de três critérios: ter dois ou mais parentes de primeiro grau acometidos por câncer epidermóide de cabeça e pescoço (CEPC) e/ou tumores relacionados (pulmão, esôfago, estômago, pâncreas, fígado, rim, bexiga e medula óssea, mama, colorretal e melanoma); ter história de aparecimento do CEPC antes dos 45 anos em pelo menos um dos membros da família ou o aparecimento do CECP em qualquer idade em casos com ausência de exposição prévia ao tabaco e álcool ou qualquer outro fator etiológico conhecido.

Após coleta de amostras de sangue dos 74 probandos (o primeiro indivíduo da família a ser avaliado) e dos parentes vivos acometidos por câncer, houve a análise de expressão de miRNAs por reação de cadeia em polimerase em tempo real (RT-qPCR). Considerando apenas os probandos, os tumores mais comuns foram da cavidade oral (42% dos casos) seguido de laringe (31.5%). Entre as 74 famílias, o número de parentes afetados foi de 171, sendo 121 de primeiro grau e 50 de segundo e terceiro graus. Neste grupo havia 19 topografias diferentes de tumores e as mais frequentes foram cabeça e pescoço (18,6%), mama (16%), cólon (13%), estômago (11%) e útero (11%). Exclusivamente entre os parentes de primeiro grau foram mais comuns, em ordem decrescente, os tumores de mama (17,4%) e cabeça e pescoço (15,7%).

O estudo aponta também que o acometimento da doença entre irmãos é a maior prevalência dos casos hereditários (46% dos casos). “Acreditamos na hipótese de que estes casos são determinados pelo resultado das somatórias das cargas genéticas do pai e da mãe. Esta informação e o fato de termos identificado possíveis reguladores de genes comumente relacionados a câncer e mais comuns no perfil hereditário quando comparados aos pacientes saudáveis e sem história familiar de câncer são indicativos de que estamos no caminho correto”, acrescenta Thiago Chulam.

Utilizando a estratégia de escores, Chulam analisou seis microRNAs que podem estar relacionados a casos familiais, casos de hsa-miR-582-3p, hsa-miR-597, hsa-miR-135b, hsa-miR-496, hsa-miR-431 e hsa-miR-517a. Os casos com escores elevados foram comparados com bancos de dados de microRNAs e selecionados para confirmação dos achados.  Em conjunto, os dados sugerem que pode haver um perfil de expressão de microRNAs específico e peculiar aos pacientes com história familiar de câncer e com potencial de serem reguladores dos genes conhecidos e muito relacionados a câncer como TGFBR1, PTEN, CDH1, TNF, FGFR4 e EGFR. Ainda segundo Thiago Chulam, a escassez de dados validados em literatura sugere a investigação desses microRNAs em estudos subsequentes para, desta forma, validar o estabelecimento da síndrome familiar de câncer de cabeça e pescoço. O estudo foi realizado com bolsa fornecida pela CAPES.

Fonte: Portal A.C Camargo Cancer Center

By | 2018-03-20T23:19:23+00:00 November 29th, 2014|Informações úteis|0 Comments